quinta-feira, 12 de março de 2009

Metade

A menina insiste em brincar de ciranda e pedir arrego à mãe quando se sente ameaçada. A mulher quer erguer a cabeça e lutar sozinha, deixar as bonecas de lado e criar juízo.A menina ve o mundo como uma grande bricadeira, não leva nada a sério, problemas a fazem rir, são pequenos demais para o vasto mundo de descobertas dela. A mulher chora com a falta de dinheiro, com a crise que prejudica seu emprego, quase arranca os cabelos com as brigas em família.A menina ve em todos ao seu redor um coração, onde ela pode se aconchegar sempre que preciso. A mulher se afasta dos humanos, eles são podres, falsos.A menina senta no chão, de pernas abertas, e debruçada sobre uma folha de papel em branco, com carinha de quem está bolando um plano para dominar o mundo começa a materializar em rabiscos e mil cores o seu mundo de casinhas verdes e árvores cheias de maçãs robustas. A mulher se debruça sobre relatórios, esfrega os olhos exaustos que há tempos não ve o que se passa a sua volta, sente um nó no peito, ve seu mundo reduzido a trabalho e noites mal dormidas. Cores já não fazem parte dele. Sua casa é escura, sem alegria. Sua arvore é um bonsai morto do canto da sala.A mulher não vê mais a menina. A menina, escondida, quer despertar novamente a mulher para o vasto universo infantil, onde sua única preocupação é com qual boneca ela vai brincar primeiro, ou se o cãozinho em seu desenho será roxo ou azul. A mulher entra em seu sótão e procura a caixa onde a menina está, entre bonecas empoiradas e lápis quebrados e sem ponta. A menina surge e a convida para brincar. Uma lágrima cai... "Onde você esteve esse tempo todo?"

2 comentários:

Guto disse...

Todo ser humano possui essas duas metades... ou deveria possuir... Não sei qual é melhor, a frieza do meu ser não consgue jogar fora a importancia do lado "adulto" mas quem rege a minha vida é uma criança!!!

Adorei o texto piolha!!! Muito mesmo!!!

Paulinha disse...

piolha rulez!
tenho algumas coisas escritas que chegam perto dessa linha de raciocínio, mas não da beleza do conteúdo.
Orgulho!